
Pode nem ser “grande” pros outros, mas pra mim será um desafio e tanto: fundar uma ONG dedicada à democratização e livre aprendizagem dos princípios e fundamentos da Computação. Não estou falando de abrir mais telecentros ou de oferecer cursos de informática (Office, Internet, edição de currículos e afins) e sim de avançar na experiência que tivemos com o projeto TERDesign do NIC: empoderar pessoas para os usos criativos da Computação em sentido amplo, no desenvolvimento do Pensamento Computacional.
A discussão sobre a urgência de oferecer oportunidades para o desenvolvimento do Pensamento Computacional, Pensamento Algorítmico ou dessa forma de resolver problemas típica dos cientistas da computação (mas não restrito a eles) já começou em fóruns do Ministério da Educação, eventos organizados pela Sociedade Brasileira de Computação, além de ser o tema da minha tese de doutorado. Melhor que engavetar a tese é tentar realizá-la na prática.
Mais do que oferecer laboratórios de informática e instrutores para o uso de software e hardware, o Brasil precisa desenvolver uma cultura de domínio criativo dos princípios da computação como estratégia de longo prazo para fomentar a inovação tecnológica no país. E isso deve começar cedo, já na educação infantil e continuando por toda a vida.
Há diversos exemplos na web, inclusive no Brasil. Basta fazer uma simples pesquisa no Google para descobrir que até o gigante das buscas está apoiando iniciativas que criem oportunidades de aprendizado dos fundamentos da Computação.
Tanto o NIC quanto meu trabalho como docente no Departamento de Desenho Industrial da Ufes já estão diretamente relacionados ao problema. Em 2009, quando cheguei na Universidade, ouvi que designers não conseguiriam (ou não precisariam) aprender a programar. Quase três anos depois a história é bem diferente, apesar de acreditar que podemos ir bem mais longe.
Eu pretendo iniciar as atividades da ONG Computação para Todos até março, já dando continuidade ao TERDesign no formato itinerante. Teremos um calendário bacana em 2012, com a exibição de documentários, realização de oficinas, palestras e seminários tanto na Ufes quanto em escolas públicas (estaduais e municipais) e particulares. Tudo de graça, aberto para todo mundo.
A idéia parece maluca? Então conheça os projetos One Laptop per Child, Scratch, Code Academy, Computer Club House, Oi Kabum, Escola do Futuro, Acessa SP, LEC/UFRGS e OLPC Brasil, só pra citar os primeiros bits da conversa.
(Momento pedinte)
Preciso de ajuda. A ONG é uma associação sem fins lucrativos mas que precisa de pessoas e recursos para funcionar. Estou reunindo gente interessada em ajudar, seja financeiramente seja com o que sabe fazer melhor em sua respectiva especialidade:
Se você está interessado, fale comigo. Vamos fazer a assembléia de fundação da ONG, aprovação do estatuto e eleição da diretoria e conselheiros. Ninguém que estiver à frente da entidade vai ganhar um centavo com isso (pelo contrário, vai acabar gastando), então é uma coisa pra quem gosta. O retorno é espetacular, acreditem.
Já criei um Twitter para o projeto e em breve colocarei um site simples no ar para falar dos progressos da forma mais transparente possível.
Por fim, vale ressaltar que a ONG está diretamente relacionada à iniciativa de fundação da incubadora. São duas pontas do mesmo problema.
Vambora :)
Pela primeira vez em 14 anos eu fiquei com vergonha e muito triste de um dia ter trabalhado para o Jornal A Gazeta.
Respeito a história do Jornal, respeito a empresa, respeito os profissionais. Entendo as posições políticas aparentes e extra-oficiais (não são assumidas claramente, então vejo assim), mas acho que antes de mais nada um veículo com tamanho alcance e peso no cenário regional precisa ser um pouco menos irresponsável.
Já li coisas muito ruins que foram publicadas em A Gazeta com o intuito de defender determinados pontos de vista. Já li muitas coisas boas também. O que não dá é pra, no mesmo espaço, encontrar um conjunto tão absurdo e preconceituoso de argumentos pra construir uma narrativa. Os elementos parece que saíram de uma versão barata de CSI com requintes de BBB.
Existe um projeto espetacular que leva A Gazeta para as salas de aula, ajudando professores na discussão do cotidiano das crianças. Ainda bem que estamos em férias escolares. Seria muito complicado pra qualquer professor abordar tal matéria, seja na rede pública ou particular.
Para usar os termos da reportagem da Rosana Figueiredo, por mais radical e de direita, morador da Praia do Canto e leitor de Caras (Sun Tzu é subversivo?) que um professor seja, não há o que fazer com tamanho conjunto de idéias desconexas que foram justapostas com o objetivo único de publicar algo ruim.
Qualquer outra explicação para a motivação é mero lero-lero ou infinitamente mais vergonhosa ou triste.
Leia a matéria e a excelente resposta do Malini.
Estou triste de verdade, especialmente porque se busca que fizeram no perfil do Eduardo no Facebook tivesse sido feita no meu, a matéria teria terminado no mínimo sugerindo que eu sou um terrorista da Al-Qaeda (e isso explicaria tudo: cotas, não fazer matrícula, morar onde moro, ser de esquerda e automaticamente incendiário de ônibus).
Comunidade de Pinheirinho (SJC, SP). Foto pra começar 2012 com força. Esse ano promete. (Taken with picplz.)

Não vou escrever nada sobre o movimento contra o aumento das passagens. A maioria das pessoas que lê esse blog sabe que eu estou a favor do movimento, que detesto a forma como o Governador “administra” o problema, e que não só ajudei a documentar os excessos do BME na Ufes no ano passado como também fugi, junto com meus alunos, das balas de borracha e bombas de gás.
Enfim, estou escrevendo para levantar duas questões: 1) o que diabos está acontecendo com o diálogo democrático entre a população e o governo conquistado a duras penas pós-ditadura militar; e 2) será que essa mudança nas relações é um problema restrito ao universo dos estudantes “baderneiros” e do governo “democrático” do ES ou todos grupos que se encontram insatisfeitos com algum tipo de condição resultante da ingerência ou omissão do Estado adotaram a insurgência como única estratégia de mudança social?
1) Os acontecidos, o diabo e o governo
Não preciso nem citar a Primavera Árabe ou os levantes populares nos países em crise na União Européia para dizer que algo está diferente. Apenas na semana passada, pude observar cinco ocorrências dessa tal “insurgência” que visa gerar fatos políticos (para usar termos do brilhante comunicado do Governo do ES).

Fechar ruas, interromper vias, resistir e enfrentar a ação policial. São todas estratégias entendidas por uns como baderna e por outros como únicas formas de atrair a atenção das autoridades. O caos gerado por atrapalhar o “direito” de ir e vir chama a imprensa, gera imagens, cria personagens a serem ouvidos e entrevistados.

Tirando a última estratégia que mencionei (enfrentar a ação policial), até o Governo do ES soube utilizar bem esse pacote de “medidas” quando foi do seu interesse. O caso dos royalties fechou uma rodovia federal em dois trechos (sul e norte), com aviso prévio por parte do Senador Magno Malta.
Tudo indica que mesmo quando a esfera é outra e o grupo prejudicado é o governo local, interromper vias também parece ser uma boa idéia para atrair a atenção de quem está no andar de cima tomando as decisões.
Resolvi citar exemplos de apenas uma semana e de locais e motivações distintas para não enviesar a discussão. Também tivemos o episódio do excesso dos policiais na USP que só não está na lista porque não houve uma manifestação que gerou aquela repressão policial. Foi um caso de repressão policial gratuita e sem fundamento.
2) A insurgência, as relações e a mudança social
Tem muito governante por aí dormindo com Gustav Le Bon debaixo do travesseiro. Multidões são hostis, descontroladas, violentas e sem propósito. Manifestantes tornam-se anônimos, não estão articulados e depredam o patrimônio público por pura histeria coletiva. Nem de longe é o caso.
Não quero fazer nenhum tipo de metadiscurso político aqui. Estou apenas interessado nos riots organizados fora dos canais da mídia institucionalizada como modus operandi dos grupos marginalizados no processo político. Digo político em sentido amplo, desde questões mais distantes do cotidiano (eventuais jurisprudências e outras delicadezas que homens e mulheres de capa debatem e mudam nossas vidas) até aquela mudança nas regras para matricular seu filho na creche do bairro.
Não tem vaga na creche? Protesto. Falta vaga na UTI? Protesto. Pergunto: onde diabos estão os governantes? Os agentes do Estado (diretos e indiretos) se fazem presentes na forma da polícia, servidores públicos ou seguranças patrimoniais terceirizados. As respostas são divulgadas por notas para a imprensa. Eventualmente algum secretário ou assessor concede uma entrevista, mas se a imprensa não aparece e fecha o cerco, ninguém fala.

No Espírito Santo, é mais fácil ver mensagens de Natal do Governador e declarações na abertura de eventos privados do que dando respostas às tais insurgências e dialogando com os insurgentes.
Estou muito curioso sobre o que se passa na mente de um político ao se deparar com uma cidadã que comprou cartolina, fez cartazes e foi reinvidicar uma vaga de UTI para a mãe na TV, ao invés de dar atenção ao doente. Ou ainda o que ele pensa quando vê um pai de família que juntou pneus, interrompeu uma rodovia federal, ateou fogo e ficou ali do lado assistindo, ao invés de ter ido trabalhar ou cuidar da sua vida.
Ser manifestante dá trabalho, mas não é esse meu ponto. A questão é que deveria ser mais fácil antecipar as insurgências que reprimi-las. Vou utilizar os mesmos exemplos dessa última semana para sugerir que
Vamos então às questões de cada episódio:
Passagens de ônibus
Não é moda, não é baderna. Cada vez mais estudantes estarão engajados na briga por melhores condições de ensino e isso inclui o transporte público. Há outras cidades manifestando apoio a Vitória e Teresina e isso vai crescer. Como disseram por aí, os estudantes são aqueles que estão apanhando, mas a pancada era para todos aqueles que dependem do transporte público mas não se mobilizam para brigar por seus direitos.
Todo ano será assim? Dessa vez o Governo até desviou o trânsito, evitou (muitos) confrontos diretos, mas o impasse continuou. Como é que vai ser? Combo aumenta-a-passagem-e-bate-nos-usuários todo início de ano?
O péssimo vídeo do Governo pergunta: “o que mais esse grupo quer?” A redução das passagens, diálogo franco, transparência no serviço, meu filho. Deu pra entender ou vamos precisar interromper mais alguma via?
Interrupção da prestação de um serviço público
Essa é difícil até de entender. No caso da Vila Progresso, a população perdeu as duas únicas linhas de ônibus do bairro porque a Prefeitura da Serra não oferece vias com a devida segurança para o tráfego dos coletivos. Esse argumento da Ceturb só sugere que vivemos um país de governantes que ainda usam pombos-correio que não voam para a comunicação entre as diferentes esferas da administração pública. Mentalizem aquele pai de família (o incendiário de pneus) ligando para o call center da prefeitura: “Senhor, nós não poderemos estar resolvendo os buracos na sua rua. Por isso, vamos estar tirando as linhas de ônibus do seu bairro.”
Pensem nas enchentes, onde o dinheiro vem pós-destruição. Pensem nos leitos de UTI, que são liberados quando a situação vai pra TV com o paciente quase morto. Há mais operações tapa-buraco que operações constrói-encosta. Sinistro.
Moradia, posses e crédito (meus favoritos)
Ah sim, Minha Casa Minha Vida. R$ 140 bilhões na segunda fase para construção de moradias para famílias com até dez salários mínimos. Sensacional: resolve parte do problema da habitação no país (dizem que o déficit é imenso) ao mesmo tempo em que gera empregos, movimenta a economia… Não que eu acredite que quem precisa invadir um terreno para ter onde morar está fora da economia, mas certamente não estaria em condições de participar de um programa habitacional como esse do Governo. O Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Teto mantém uma conexão conceitual com o dos Sem Terra não para gerar fatos políticos, mas porque o acesso à moradia é um treco tão complicado quanto o acesso à terra no país.
Existe um problema sistêmico nesse liberalismo moderninho em voga no Brasil: os ultraliberais acreditam que os movimentos dos sei-lá-o-quê são oportunistas, acomodados, subversivos, sei lá. Se o cara ganhar uma terra ele vai vender para depois pedir outra. Se ganhar uma moradia, mesmo destino. Se tiver passe livre, vai ficar vagabundando de ônibus sem rumo pela cidade.
Já um Minha Casa Minha Vida e afins é outra história porque coloca o ex-sem sei-lá-o-quê no sistema financeiro. Bancos ficam felizes (abertura de contas, juros, pacotes de serviços), construtoras ficam felizes (obras de baixo custo = lucro), prefeituras ficam felizes (urbanização e desenvolvimento de áreas com dinheiro privado, novinho, fora do orçamento e disfarçado de investimento público) e os contemplados ficam felizes (pagando aquela dívida durante 20 anos).
No caso especifico de Pinheirinho, se você aloca parte do recurso do Minha Casa Minha Vida para um fundo social de habitação popular urbana o efeito não é o mesmo e os liberais não ficarão felizes. Iniciativas como o projeto Um teto para meu país realizam o estado democrático de direito do avesso, empoderando os cidadãos na omissão do Governo e sem inclusão no sistema econômico-produtivo do país como pré-requisito. Moradias construídas em mutirão sobre terrenos invadidos e projetos sociais de formação de construtores não abrem contas, não entram na propaganda política e não têm dia de inauguração das obras com a presença do prefeito.
O que está acontecendo?
Não estou dando respostas, só fazendo perguntas. O que eu estou percebendo é que 1600 famílias armadas não esperam pela visita do secretário local de defesa social ou pelo ministro das cidades; que estudantes encapuzados portando estilingues não esperam conversar com o Governador, mas enfrentar o BME; que pais de família que incendeiam pneus não aguardam o presidente da Ceturb e o secretario de obras, mas alguma forma de repressão policialesca OU a imprensa, que pode tanto ajudá-los quanto atrapalhá-los na cruzada (tudo depende da edição).
Um governo que não sabe falar só terá cidadãos que não sabem ouvir. Eu, particularmente, estou surdinho.
PS: Não tenho partido político, não sou candidato a nada, não faço parte de nenhum movimento social. Sou servidor público federal, filho de servidores públicos e conheço a história dos pombos-correio que não voam bem de perto desde moleque. Se você está ofendido com alguma coisa escrita aqui é só comentar ou me processar, só não vale me bater.

Isso aí na foto é um buraco. Este buraco está aberto há mais de 15 dias na minha rua. Já não está mais só, já que o volume das chuvas trouxe mais quatro amiguinhos para o buraco original.
Essa deve ser a realidade de várias ruas dos bairros da Grande Vitória que não sofreram pra valer com as recentes tempestades. O problema é que, ao contrário da minha rua e de várias outras menos importantes, as vias principais já passaram pela operação tapa-buracos.

A minha curiosidade é: como é possível escalar uma equipe, agendar o caminhão que transporta a mistura de asfalto, ir até uma via importante, cobrir uma série de buracos e simplesmente ignorar TODAS as vias alimentadoras e capilares que se conectam num raio de 200-300 metros?
Ah, existe um itinerário, um planejamento, uma ordem, um sistema. Aham, sei. Vamos fazer um exercício teórico, transformando num passe de mágica uma secretaria de obras ou de infraestrutura de trânsito em uma micro, pequena ou média empresa brasileira. Nem vou pegar pesado sugerindo que seja uma empresa familiar. Vamos supor que se trata de uma empresa devidamente profissionalizada, equilibrada financeiramente, com seus cargos ocupados por mérito e com um certo know-how naquilo que faz: consertar buracos abertos pela chuva.
Um detalhe importante: sua empresa recebe para cobrir TODOS os buracos e recebe por cada um deles. A estratégia é atender e deixar satisfeito o maior número de clientes possível economizando recursos sem perder a qualidade da entrega (poderia falar até em inovação na prestação do serviço mas vou deixar pra lá). Isso é a iniciativa privada, certo?

Observem o mapa acima. As vias indicadas em amarelo e laranja são aquelas contempladas pela operação do poder público perto da minha casa. Vale esclarecer que a codificação das cores NÃO É MINHA. Eu simplesmente capturei o mapa do Google pois a classificação “oficial” da importância e da intensidade do fluxo das vias já explica o critério de seleção da prefeitura quando precisa resolver o problema.
Imaginem. Tudo que está em branco foi até visto pela equipe da operação. Eles proavelmente estacionaram o caminhão em uma via dessas. Fizeram o almoço e o descanso pós-almoço nas diversas vias em branco. Encontraram velhos amigos, falaram sobre festas de fim de ano e desejaram o melhor de 2012 uns aos outros naquelas ruas. Só não fecharam um buraco sequer em nenhuma delas porque… Por quê?
Porque não importa. Porque não passa ônibus ali, porque ninguém daquelas ruas tem tempo de ficar ligando para a prefeitura reclamando dos buracos abertos há 20 dias, porque aquelas pessoas ali simplesmente pagam o IPTU e mais nada, logo isso não dá direito a tratamento VIP.
Cada vez mais eu vejo gente falando em crescimento do Espírito Santo, em eficiência, transparência, qualidade na prestação do serviço público.
A grande verdade é que se qualquer esfera do poder público capixaba fosse uma empresa privada, que depende de eficiência, produtividade e da satisfação dos seus clientes para prosperar, já tinha quebrado.
Neste ano teremos eleições municipais. Seria irônico se fosse um processo seletivo para preenchimento de cargos na iniciativa privada. Será que passaria alguém?