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Jan 14 ’12

O que está acontecendo?

Foto: Fabio Botacin

Não vou escrever nada sobre o movimento contra o aumento das passagens. A maioria das pessoas que lê esse blog sabe que eu estou a favor do movimento, que detesto a forma como o Governador “administra” o problema, e que não só ajudei a documentar os excessos do BME na Ufes no ano passado como também fugi, junto com meus alunos, das balas de borracha e bombas de gás.

Enfim, estou escrevendo para levantar duas questões: 1) o que diabos está acontecendo com o diálogo democrático entre a população e o governo conquistado a duras penas pós-ditadura militar; e 2) será que essa mudança nas relações é um problema restrito ao universo dos estudantes “baderneiros” e do governo “democrático” do ES ou todos grupos que se encontram insatisfeitos com algum tipo de condição resultante da ingerência ou omissão do Estado adotaram a insurgência como única estratégia de mudança social?

1) Os acontecidos, o diabo e o governo
Não preciso nem citar a Primavera Árabe ou os levantes populares nos países em crise na União Européia para dizer que algo está diferente. Apenas na semana passada, pude observar cinco ocorrências dessa tal “insurgência” que visa gerar fatos políticos (para usar termos do brilhante comunicado do Governo do ES).

Manifestantes em Pinheirinho Foto: Mario Ângelo/Sigmapress/AE

Fechar ruas, interromper vias, resistir e enfrentar a ação policial. São todas estratégias entendidas por uns como baderna e por outros como únicas formas de atrair a atenção das autoridades. O caos gerado por atrapalhar o “direito” de ir e vir chama a imprensa, gera imagens, cria personagens a serem ouvidos e entrevistados.

imagem encontrada no Facebook

Tirando a última estratégia que mencionei (enfrentar a ação policial), até o Governo do ES soube utilizar bem esse pacote de “medidas” quando foi do seu interesse. O caso dos royalties fechou uma rodovia federal em dois trechos (sul e norte), com aviso prévio por parte do Senador Magno Malta.

Tudo indica que mesmo quando a esfera é outra e o grupo prejudicado é o governo local, interromper vias também parece ser uma boa idéia para atrair a atenção de quem está no andar de cima tomando as decisões.

Resolvi citar exemplos de apenas uma semana e de locais e motivações distintas para não enviesar a discussão. Também tivemos o episódio do excesso dos policiais na USP que só não está na lista porque não houve uma manifestação que gerou aquela repressão policial. Foi um caso de repressão policial gratuita e sem fundamento.

2) A insurgência, as relações e a mudança social
Tem muito governante por aí dormindo com Gustav Le Bon debaixo do travesseiro. Multidões são hostis, descontroladas, violentas e sem propósito. Manifestantes tornam-se anônimos, não estão articulados e depredam o patrimônio público por pura histeria coletiva. Nem de longe é o caso.

Não quero fazer nenhum tipo de metadiscurso político aqui. Estou apenas interessado nos riots organizados fora dos canais da mídia institucionalizada como modus operandi dos grupos marginalizados no processo político. Digo político em sentido amplo, desde questões mais distantes do cotidiano (eventuais jurisprudências e outras delicadezas que homens e mulheres de capa debatem e mudam nossas vidas) até aquela mudança nas regras para matricular seu filho na creche do bairro.

Não tem vaga na creche? Protesto. Falta vaga na UTI? Protesto. Pergunto: onde diabos estão os governantes? Os agentes do Estado (diretos e indiretos) se fazem presentes na forma da polícia, servidores públicos ou seguranças patrimoniais terceirizados. As respostas são divulgadas por notas para a imprensa. Eventualmente algum secretário ou assessor concede uma entrevista, mas se a imprensa não aparece e fecha o cerco, ninguém fala.

No Espírito Santo, é mais fácil ver mensagens de Natal do Governador e declarações na abertura de eventos privados do que dando respostas às tais insurgências e dialogando com os insurgentes.

Estou muito curioso sobre o que se passa na mente de um político ao se deparar com uma cidadã que comprou cartolina, fez cartazes e foi reinvidicar uma vaga de UTI para a mãe na TV, ao invés de dar atenção ao doente. Ou ainda o que ele pensa quando vê um pai de família que juntou pneus, interrompeu uma rodovia federal, ateou fogo e ficou ali do lado assistindo, ao invés de ter ido trabalhar ou cuidar da sua vida.

Ser manifestante dá trabalho, mas não é esse meu ponto. A questão é que deveria ser mais fácil antecipar as insurgências que reprimi-las. Vou utilizar os mesmos exemplos dessa última semana para sugerir que

  1. Os governantes em geral (e do ES em particular) simplesmente não querem dialogar fora do seu círculo de interesses, apesar de manterem uma comunicação institucional dramática, vazia e ultrapassada com uma sociedade que, na cabeça deles, está assistindo tudo sem pensar criticamente; ou
  2. O mundo inteiro mudou, as relações se transformaram, as pessoas estão dispostas a lutar efetivamente por esse tal estado democrático de direito e não querem mais ouvir um “vamos resolver” como resposta.

Vamos então às questões de cada episódio:

Passagens de ônibus
Não é moda, não é baderna. Cada vez mais estudantes estarão engajados na briga por melhores condições de ensino e isso inclui o transporte público. Há outras cidades manifestando apoio a Vitória e Teresina e isso vai crescer. Como disseram por aí, os estudantes são aqueles que estão apanhando, mas a pancada era para todos aqueles que dependem do transporte público mas não se mobilizam para brigar por seus direitos.

Todo ano será assim? Dessa vez o Governo até desviou o trânsito, evitou (muitos) confrontos diretos, mas o impasse continuou. Como é que vai ser? Combo aumenta-a-passagem-e-bate-nos-usuários todo início de ano?

O péssimo vídeo do Governo pergunta: “o que mais esse grupo quer?” A redução das passagens, diálogo franco, transparência no serviço, meu filho. Deu pra entender ou vamos precisar interromper mais alguma via?

Interrupção da prestação de um serviço público
Essa é difícil até de entender. No caso da Vila Progresso, a população perdeu as duas únicas linhas de ônibus do bairro porque a Prefeitura da Serra não oferece vias com a devida segurança para o tráfego dos coletivos. Esse argumento da Ceturb só sugere que vivemos um país de governantes que ainda usam pombos-correio que não voam para a comunicação entre as diferentes esferas da administração pública. Mentalizem aquele pai de família (o incendiário de pneus) ligando para o call center da prefeitura: “Senhor, nós não poderemos estar resolvendo os buracos na sua rua. Por isso, vamos estar tirando as linhas de ônibus do seu bairro.”

Pensem nas enchentes, onde o dinheiro vem pós-destruição. Pensem nos leitos de UTI, que são liberados quando a situação vai pra TV com o paciente quase morto. Há mais operações tapa-buraco que operações constrói-encosta. Sinistro.

Moradia, posses e crédito (meus favoritos)
Ah sim, Minha Casa Minha Vida. R$ 140 bilhões na segunda fase para construção de moradias para famílias com até dez salários mínimos. Sensacional: resolve parte do problema da habitação no país (dizem que o déficit é imenso) ao mesmo tempo em que gera empregos, movimenta a economia… Não que eu acredite que quem precisa invadir um terreno para ter onde morar está fora da economia, mas certamente não estaria em condições de participar de um programa habitacional como esse do Governo. O Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Teto mantém uma conexão conceitual com o dos Sem Terra não para gerar fatos políticos, mas porque o acesso à moradia é um treco tão complicado quanto o acesso à terra no país.

Existe um problema sistêmico nesse liberalismo moderninho em voga no Brasil: os ultraliberais acreditam que os movimentos dos sei-lá-o-quê são oportunistas, acomodados, subversivos, sei lá. Se o cara ganhar uma terra ele vai vender para depois pedir outra. Se ganhar uma moradia, mesmo destino. Se tiver passe livre, vai ficar vagabundando de ônibus sem rumo pela cidade.

Já um Minha Casa Minha Vida e afins é outra história porque coloca o ex-sem sei-lá-o-quê no sistema financeiro. Bancos ficam felizes (abertura de contas, juros, pacotes de serviços), construtoras ficam felizes (obras de baixo custo = lucro), prefeituras ficam felizes (urbanização e desenvolvimento de áreas com dinheiro privado, novinho, fora do orçamento e disfarçado de investimento público) e os contemplados ficam felizes (pagando aquela dívida durante 20 anos).

No caso especifico de Pinheirinho, se você aloca parte do recurso do Minha Casa Minha Vida para um fundo social de habitação popular urbana o efeito não é o mesmo e os liberais não ficarão felizes. Iniciativas como o projeto Um teto para meu país realizam o estado democrático de direito do avesso, empoderando os cidadãos na omissão do Governo e sem inclusão no sistema econômico-produtivo do país como pré-requisito. Moradias construídas em mutirão sobre terrenos invadidos e projetos sociais de formação de construtores não abrem contas, não entram na propaganda política e não têm dia de inauguração das obras com a presença do prefeito.

O que está acontecendo?
Não estou dando respostas, só fazendo perguntas. O que eu estou percebendo é que 1600 famílias armadas não esperam pela visita do secretário local de defesa social ou pelo ministro das cidades; que estudantes encapuzados portando estilingues não esperam conversar com o Governador, mas enfrentar o BME; que pais de família que incendeiam pneus não aguardam o presidente da Ceturb e o secretario de obras, mas alguma forma de repressão policialesca OU a imprensa, que pode tanto ajudá-los quanto atrapalhá-los na cruzada (tudo depende da edição).

Um governo que não sabe falar só terá cidadãos que não sabem ouvir. Eu, particularmente, estou surdinho.

PS: Não tenho partido político, não sou candidato a nada, não faço parte de nenhum movimento social. Sou servidor público federal, filho de servidores públicos e conheço a história dos pombos-correio que não voam bem de perto desde moleque. Se você está ofendido com alguma coisa escrita aqui é só comentar ou me processar, só não vale me bater.

14 notes

  1. hugocristo posted this
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